88. Se, numa manhã de inverno, ficardes olhando para o oriente, num lugar aberto, a parte anterior de vosso corpo será aquecida pelo sol, ao passo que as costas não receberão nenhum calor, porque o sol não vos atinge verticalmente. Da mesma forma, o coração dos que ainda estão no começo da operação do Espírito é apenas parcialmente aquecido pela santa graça.
Por isso, o intelecto começa a produzir o fruto dos pensamentos espirituais, enquanto as partes visíveis do coração continuam a pensar segundo a carne; porque nem todos os membros do coração foram ainda iluminados pela luz da santa graça, no íntimo e sensivelmente. Eis por que a alma pode conceber, no mesmo momento, pensamentos bons e pensamentos maus: como o indivíduo de minha comparação sente, no mesmo momento, arrepios de frio e a carícia do calor.
Pois, a partir do momento em que nosso intelecto deslizou para uma dupla ciência, ele tem necessidade de produzir, no mesmo instante, pensamentos bons e maus, sobretudo se chegou à sutileza do discernimento: enquanto ele continua a se esforçar para pensar o que é bom, imediatamente o mau lhe vem à memória, porque, pela desobediência de Adão, a memória fendeu-se em duplo pensamento.
Se, portanto, começarmos a cumprir com fervor os mandamentos de Deus, a graça logo iluminará nossos sentidos com um sentimento muito profundo; consumirá, por assim dizer, nossos pensamentos, suavizará nosso coração pela paz de uma inexprimível amizade, e dar-nos-á a disposição para pensar coisas espirituais e não mais carnais. É o que acontece continuamente com os que se aproximam da perfeição e guardam no coração, ininterrupta, a lembrança de Jesus.
96. ... O intelecto deve, sempre, aplicar-se na prática dos mandamentos divinos e na lembrança profunda do Senhor da glória.
97. Quando o coração recebe, com uma espécie de dor pungente, as setas dos demônios, a ponto de ter o combatente a impressão de senti-las cravadas nele, a alma tem dificuldade em detestar as paixões, porque ela está no início de sua purificação. Pois, se ela não sofrer intensamente a impudência do pecado, não poderá conhecer a alegria exuberante inspirada pela beleza de sua justiça.
Quem quiser purificar o coração, não cesse, portanto, de abrasá-lo pela lembrança de Jesus. Que seja o seu único exercício e seu trabalho ininterrupto. Quando se quer eliminar a própria podridão, não há momento de orar e momento de não orar; é necessário consagrar-se sempre à oração, guardando o intelecto, mesmo estando fora da casa de oração. Quem purifica minério de ouro tem apenas de deixar baixar, por algum tempo, o fogo da fornalha, e a matéria que queria purificar volta à sua dureza. Do mesmo modo, quem se lembra de Deus em alguns momentos, noutros não, perde pela interrupção o que crê obter pela oração. O homem que ama a virtude é aquele que não cessa de eliminar do coração o elemento terreno, através da lembrança de Deus; assim, pouco a pouco, o mal se dissipa à lembrança do bem e a alma volta com perfeição a seu esplendor natural e glorioso.